terça-feira, 2 de agosto de 2011

Educação na dança x saúde do bailarino


Olá queridos alunos e leitores do blog!

Neste mês de julho apresentei um trabalho que compõe a minha nota num dos módulos do Certificate in Ballet Teaching Studies, especialização da Royal Academy of Dance/Faculty of Education/University of Surrey a qual estou cursando. Achei que o texto ficou adequado para a leitura de vocês poi não é tão pesado como os papers de Engenharia Biomédica que eu escrevia (rsrsrs...) e tem boas informações para quem quer dançar sem se machucar e futuramente ensinar outras pessoas a dançar sem machucá-las...
Dêem uma lida e me falem depois o que acharam...
Aguardo seus comentários...
Beijos, Profª Dani



Royal Academy of Dance - University of Surrey

CBTS - Module 103 The healthy dancer

Danielle Bittencourt


Quando o ser humano adotou a postura bípede ereta, inevitavelmente foi desafiado a manter o equilíbrio corporal sobre a pequena base de suporte delimitada pelos pés e constantemente desafiada pela força da gravidade.
De acordo com Duarte (2000), a principal tarefa do sistema neuromuscular no controle da postura é a manutenção da projeção horizontal do centro de gravidade do indivíduo dentro da base de suporte determinada pela área de apoio dos pés durante a postura ereta.

Quando apoiado igualmente sobre os dois pés toda a carga do corpo recai sobre os mesmos, sendo que nesta situação as regiões nas quais o peso corporal é distribuído são a do retropé e antepé que de acordo com Brino (2003) correspondem a aplicação de 57% e 43% do peso corpóreo respectivamente.
Porém, ao rotacionar externamente os fêmures na bacia como pede a postura do ballet clássico, todo o equilíbrio muda na projeção do centro de massa na base de apoio dos pés (RAD, 2009).

A bacia deve ser estabilizada em posição neutra sem forçar anteversão nem retroversão, facilitando a rotação externa dos fêmures nos acetábulos. Tal estabilização deverá ser realizada pela ação de músculos posturais como os profundos do abdomem (oblíquo externo, oblíquo interno, transverso do abdomem, reto abdominal e piramidal), pelvitrocanterianos (piriforme, obturador interno, obturador externo, gêmeo superior, gêmeo inferior e quadrado da coxa), assoalho pélvico e eretores da espinha, todos em ação de sustentação do peso da parte superior do corpo; na coxa e perna, fêmures, patela, tíbias e fíbulas corretamente alinhadas (sem torções no joelho geradas por turn out demasiado da perna em detrimento à coxa) e nos pés arcos longitudinal e transversal devem ser controlados ativamente por meio da contração da musculatura intrínseca dos pés. (CALAIS-GERMAIN, 1992).

Existem restrições de turn out relacionadas ao treinamento de suporte e em dança e relacionadas à natureza do corpo do bailarino. Quanto às primeiras podemos dizer sobre o trabalho dos músculos rotatores laterais profundos, que dão sustentação à pelve em relação aos trocânteres e realizam a rotação externa dos fêmures nos acetábulos da pelve, sendo auxiliados pelos músculos glúteo médio (quando há abdução combinada à rotação externa), glúteo máximo e sartório (quando com flexão do quadril e joelho combinadas à rotação externa) (PALMER, 2000).

Apesar de todas as ações musculares acima descritas, a amplitude da rotação externa do fêmur que determina o turn out do ballet clássico não depende unicamente da consciência e fortalecimento destes músculos. Características antropomórficas (a tal da “natureza” do corpo do bailarino) como o ângulo de inserção da cabeça do fêmur no acetábulo e a rigidez ou frouxidão do ligamento pubofemoral e cápsula articular que envolve a articulação ilíaco-femoral determinam quão ampla será a rotação externa (e interna) do bailarino (CALAIS-GERMAIN, 1992).

Infelizmente na dança, muitas das lesões ocorrem por erros na técnica de ensino/ treinamento. O erro mais freqüente é o turn out forçado do pé:

“[...] às custas dos joelhos, quadris e costas, provoca um padrão previsível de lesões, inclusive tendinite do flexor do quadril, irritação das facetas articulares, fraturas de estresse das porções interarticulares, inflamação crônica do ligamento colateral medial e síndrome de estresse tibial medial.” (SCHAFLE, 1996 apud GUIMARÃES e SIMAS, 2001 p.91)


Outro erro comum observado nos estúdios de dança é o uso dos dedos em garra para forçar um equilíbrio em rotação externa a partir dos pés para uma perna ineficiente na rotação externa. Além dos inevitáveis desequilíbrios, as lesões causam:

“[...] rotação para dentro ou pronação, acarretando rotação interna e eversão do primeiro raio, preparando o cenário biomecânico para a formação do joanete. A apreensão com os pés, a pronação e a rotação externa insuficiente ao nível dos quadris combinam-se para impor um entorse externo sobre a tíbia. Isso pode causar dor no compartimento medial do joelho, por estiramento do ligamento colateral medial e resultar em problemas de disfunção patelofemoral, tendinite patelar e condromalacia da patela.” (SOLOMON, 1991 apud GUIMARÃES e SIMAS, 2001 p.94)



Seria adequada a conscientização sobre a articulação ilíaco-femoral desde a infância, sua consciência corporal, visando não lesionar-se futuramente, buscando uma performance adequada sobre seus pés e sobre o trabalho consciente envolvendo o posicionamento e fortalecimento dos mesmos.

Ao dançar realizamos inúmeros movimentos com os pés. Porém , no ballet clássico, o movimento mais comum é o subir e descer das pontas. Como os movimentos são muitos e variados, comentarei aqui a respeito do subir em pontas.
O subir na ponta vem da combinação da contração dos músculos da panturilha (gastrocnêmios e sóleo), da estabilização para não tombar externamente vinda da contração dos músculos fibulares longo e curto (que são músculos que ficam no compartimento lateral responsáveis pela realização da eversão do tornozelo) e da ação combinada dos músculos flexor longo do hálux, o flexor longo dos dedos e o tibial posterior que contribuem para a flexão plantar do tornozelo porém com ação principal de flexão do hálux e dos e dos quatro dedos laterais, respectivamente (CALAIS-GERMAIN, 1992).


Já os músculos intrínsecos do pé existem em 4 camadas que agem na flexão plantar e na manutenção dos arcos: a 1ª delas na região plantar inclui o abdutor do hálux, o flexor curto dos dedos e o abdutor do dedo mínimo que, além de contribuírem para o movimento dos dedos, atuam como sinergistas na estabilidade dos arcos nos pés. A segunda camada inclui o flexor acessório e os lumbricais. A terceira camada é constituída pelo flexor do dedo mínimo. A quarta camada inclui os músculos interósseos dorsal e plantar (HAMILL e KNUTZEN, 1999).

É recomendável que as alunas não realizem grandes esforços em ponta enquanto têm de 8 a 12 anos, dedicando seu tempo a aprender os posicionamentos corretos e a consciência da postura do corpo e da movimentação do pé e ganhar força de modo a não prejudicarem suas cartilagens e ossos em crescimento. (GUIMARÃES e SIMAS, 2001 apud SIMÕES e ANJOS, 2010 p. 121).

O trabalho de pontas deve ser feito em aulas especiais e específicas a este fim pois demanda tempo, paciência e consciência.
Tornar o bailarino consciente de seu aparelho locomotor desde a mais tenra idade é precioso método para o aprimoramento técnico e conseqüentemente artístico e, mais importante, evita lesões que venham a abreviar sua carreira.

Saber como utilizar seu corpo, instrumento de sua arte é fundamental para sua carreira. A formação adequada do professor de dança é determinante no sucesso (e saúde) dos estudantes de dança e vai muito além da formação técnica de bailarino e da experiência de palco. Os cursos de Licenciatura e Bacharelado em Dança deveriam ser apenas a base para carreira longa e delicada do professor de dança. Mas esta ainda é uma realidade longe de ser atingida em nosso país. Infelizmente.




Os bailarinos devem ser ensinados conhecer sua morfologia e a sentir seus corpos. Compreender que o alinhamento postural é fundamental à biomecânica que seu corpo apresentará na prática, que as leis da física atuam sobre seu corpo, que seus ossos se encaixam de determinada forma e são movidos por músculos de determinada maneira e que tudo está sob seu fino controle via sistema nervoso sendo muito delicado e demandando anos de prática para o domínio dos movimentos que devem ser feitos sob segurança e de acordo com a fase de vida que está passando, suas características antropomórficas, seus objetivos ante a realidade.
 “Todas as tarefas motoras humanas envolvidas no conhecimento espacial têm sua base no controle da postura corporal contra a gravidade: ao manter-se em pé, andar, abaixar-se, alcançar objetos, o homem desenvolve, aprende e aprimora uma infinita gama de combinações de movimentos os quais necessitam de controle e modulação do sistema nervoso sobre todo o aparelho motor.” (BITTENCOURT, 2009, p.18)


O aluno deve ter consciência da sustentação da coluna pela musculatura postural, alongando-a na postura correta e que a liberação do peso da pelve torna mais fácil o turn out pois libera articulação ilíaco-femoral descoaptando-a e permitindo desta forma maior movimentação, dentro claro dos limites individuais pré-estabelecidos. Como diz Ivaldo Bertazzo:
“[...] a ausência de mecanismos adequados de extensão (e rotação externa) da articulação coxofemoral pode levar a uma atitude de flexão e rotação interna, que dá a impressão de estarmos sentados, mesmo estando em pé” (BERTAZZO, 2010 p.203)


Seria adequada a conscientização da articulação ilíaco-femoral desde a infância, com atividades de turn in e turn out do fêmur, inclinações pélvicas laterais, anterversões e retroversões da pelve, visualização do esqueleto humano, atividades de desenho dos conjuntos articulares, para que a criança crie consciência corporal e possa desenvolver de modo adequado seu turn out sem lesionar-se futuramente, buscando uma performance adequada e equilibrada.
O trabalho articulado dos pés são conseqüência de um alinhamento correto pelve-fêmur-perna-pé. Os pés de bailarino são bem trabalhados quando o aluno ainda criança compreende a distribuição do peso nas regiões dos pés, nas diferentes situações (pied à plat, pied sur la demi pointe, pied sur la pointe) inicialmente na barra e depois no centro da sala.

O professor de dança deve compreender que não são todos os físicos que atingirão um turn out completo, uma 5th position perfeita ou a amplitude máxima do developpé a la seconde... E que existem corpos diferentes uns dos outros e que todos podem dançar mas cada um a sua maneira, sempre, logicamente, com a melhor orientação e técnica possível, mas dentro dos limites da saúde do indivíduo.


REFERÊNCIAS



BERTAZZO, Ivaldo. Corpo vivo: reeducação do movimento. São Paulo: Edições Sesc, 2010


BITTENCOURT, Danielle. Quantificação de variáveis eletromiográficas na extensão do tronco e quadril em diferentes condições visuais. Dissertação de Mestrado em Engenharia Biomédica - Área de concentração: Processamento de sinais e imagens médicas. Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 2009

BRINO, C.S. Influência de diferentes calçados sobre os percentuais da força peso aplicados na base de sustentação e a postura corporal em pé. Porto Alegre: UFRGS, 2003. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003.

CALAIS-GERMAIN, Blandine. Anatomia para o movimento. Vol I. São Paulo: Manole, 1992

DUARTE, M. Análise Estabilográfica da Postura Ereta Humana Quasi-Estática. São Paulo: USP, 2000. Dissertação (Docência na área de Biomecânica), Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo, 2000.

GUIMARÃES, Adriana Coutinho de Azevedo; SIMAS, Joseani Paulini Neves. Lesões no ballet clássico. Revista da Educação Física. UEM Maringá, v. 12, n. 2, p. 89-96, 2º semestre, 2001

HAMILL, J.; KNUTZEN, K. M. Bases biomecânicas do movimento humano. 1ª edição. São Paulo: Manole, 1999.

PALMER, L.M.; EPLER, M.E.. Fundamentos das Técnicas de Avaliação Musculoesquelética. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2000.


ROYAL ACADEMY OF DANCE. Certificate in Ballet Teaching Studies. Module 103. O Bailarino Saudável – Module Study Guide. United Kingdom: Royal Academy of Dance/ Dance Books, 2009

SCHAFLE, M. D. Segredos em medicina desportiva: respostas necessárias ao dia-a-dia em centros de treinamento, na clínica em exames orais e escritos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996

SIMÕES, Renata Duarte; ANJOS, Aweliton Fernando Peres dos. O ballet clássico e as implicações anatômicas e Biomecânicas de sua prática para os pés e tornozelos. Revista da Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Campinas, v. 8, n. 2, p. 117-132, maio/ago. 2010

SOLOMON, R. Foot morphology and injury patterns in ballet and modern dancers: some thoughts on doing research. Kinesioly and medicine for dance, USA, v. 14, n. 1, p. 12-24, 1991.

sábado, 16 de julho de 2011

Nossos bailarinos em campanha do Studio Leonel Santos, a maior empresa especializada em fotos de dança no Brasil.

Que lindos!!!

Brilharam o Prof. Cleiton Costa dançando "Ojos Así" e Naiara Silveira dançando "Luiza", ambos em nosso espetáculo de 2010.

Nossa escola foi convidada para participar da campanha publicitária em material gráfico e as fotos de nossos queridos bailarinos serão divulgadas em território nacional pelo Studio Leonel Santos (Paraná), a maior empresa especializada em fotos de dança no Brasil.

Parabéns!

Beijos,

Profª Danielle

Naiara Silveira dançando "Luiza" em 15/12/2010 no Cemforpe de Mogi das Cruzes. Coreografia de Danielle Bittencourt (1993)

Cleiton Costa dançando "Ojos Así" em 15/12/2010. Coreografia de Cleiton Costa (2010)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fomos ao Canteiro de obras comentado com a São Paulo Companhia de Dança

   No dia 02 de julho, sábado passado, participamos de um evento muito interessante da São Paulo Companhia de Dança (do Governo do Estado de São Paulo, portanto, nossa!), dentro do festival de Dança Alto Tietê.

   Apesar de não levar os alunos para competições de dança (porque, ao meu ver, arte é algo interpretativo e subjetivo, com julgamentos estéticos de valor que transcendem a técnica, diferente do esporte onde o desempenho é medido e a pontuação comparada entre os competidores... complicado...e aliás a gente deve buscar sempre se auto-superar e não superar os outros... enfim, penso assim...), sempre que há oportunidade de aprender, crescer, ver o trablaho de pessoas que são exemplos de sucesso, claro que os inscrevi, com o maior prazer!!! Daí cursos, workshops, palestras, exames... são todos bem-vindos nesta linha de pensamento.
  
   E lá fomos nós ao CEMFORPE assistir ao documentário "Canteiro de Obras São Paulo Companhia de Dança (SPCD) - 2010"...
  
   No documentário eram mostrados os processos de montagem e ensaio das obras que formaram o repertório da SPCD em 2010, a visão dos bailarinos, diretores, ensaiadores, coreógrafos...
  
   Os nossos alunos puderam perceber quão árduo é o trabalho do bailarino, conhecer a cia, como são feitas as audições e o dia-a-dia de um artista "CLT", profissão não muito conhecida no nosso país, mas com artistas bri-lhan-tes!!!
  
   E o mais legal é que, além de empolgá-los (aos alunos) a fazer mais e mais em sala de aula para alcançar bons objetivos no palco, mostrou que a vida do bailarino, do coreógrafo, do ensaiador, do cenógrafo, do figurinista, do iluminador, etc., etc., enfim, de toda a equipe que exige uma montagem de espetáculo de dança, é como a de qualquer trabalhador, mas que nesta carreira, muito além da técnica do ofício, todos estes artistas têm a possibilidade de se colocar e expressar no resultado final do trabalho (diga-se de passagem um árduo trabalho de equipe!): a coreografia apresentada ao público no teatro.
  
   Também puderam refletir sobre os processos de criação de obras e remontagens de ballets, sobre a versatilidade que o mercado hoje exige do bailarino, mostrando-se capaz de interpretar obras clássicas, modernas e contemporâneas num mesmo corpo, e muitas vezes numa mesma temporada.
  
   Outro aspecto importante desta companhia em especial é o fato de não possuir elenco fixo (como em várias outras onde o 1º bailarino ocupa sempre este posto). São em torno de 40 bailarinos e a cada nova produção, eles passam por uma audição interna para que o corógrafo ou o ensaiador escolha quem faz qual papel naquele trabalho, obrigando-os a sempre se desafiarem a serem melhores e melhores e melhores... (é a tal da auto-superação....)
  
   Enfim...Foi uma experiência tão legal para nossos alunos que já estou planejando com a produtora de formação cultural e memória da SPCD os próximos eventos do tipo! E com o Teatro Municipal de São Paulo recém restaurado será de babar!!!Aguardem...
  
   Abaixo imagens da SPCD em fotos de João Caldas...
 
    Beijos,
  
   Profª Danielle
                                                                   Theme and Variations


Os Duplos


Prélude à l'aprés midi d'un faune



Sechs Tänze

terça-feira, 21 de junho de 2011

Agora é a vez do Inter Foundation e do Grade 8 aparecerem no blog do ballet!!!

Nossas mocinhas do Intermediate Foundation (de pink) e do grade 8 (de verde) fazem bonito na ponta, na barra e no centro!
Acompanhem alguns dos exercícios da aula do dia 20 de junho...
Beijos,
Profª Danielle





segunda-feira, 20 de junho de 2011

The basic positions...

A turmas do Primary in Dance do período da manhã aprendeu e a do Grade 1 do período da tarde revisou todas as posições básicas dos pés e dos braços que dão suporte à técnica clássica.
Olhem as fotos, que graça!

                                                                 Duda em Demi Bras

A tchurma do Grade I e os divertidos cards

1st, 2nd, 3rd, 4th and 5th position (feet)!

Ana: 1st position of the arms

Aurora: 2nd position of the arms

Luana, Sarinha, Julia: bras bas, 1st and 5th position

Maria Fernanda: 3rd position (feet)

Mamá em classical pose!

Lindas e aprendendo muitas coisas novas...

Beijos a todas...

Profª Danielle

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Oração de Santo Agostinho (334-430 d.C.)


Louvada seja a Dança,
Porque ela liberta o homem do peso das coisas materiais,
E une os solitários para formar sociedade.
Louvada seja a Dança
Que tudo exige e fortalece:
Saúde, mente serena e uma alma encantada.
A Dança significa transformar o espaço, o tempo e a pessoa,
Que sempre corre perigo de se desfazer e ser ou somente cérebro ou só vontade ou só sentimento.
A Dança porém exige o ser humano inteiro, ancorado em seu centro
E que não conheceu a obsessão da vontade de dominar gente ou coisas
E que não sente o demônio de estar perdido no seu próprio ser.
A Dança exige homem livre e aberto,
Vibrando na harmonia de todas as forças.
Ó homem, ó mulher: aprenda a dançar!
Senão os anjos do céu não saberão o que fazer contigo.

                                                                                                  Santo Agostinho (334-430 dC)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Reflexões sobre a minha vida com a dança...


A arte tem um poder incrível na vida de quem a escolhe como meio de expressão. E a dança é uma manifestação artística apaixonante!!!
Iniciei meus estudos em dança no ano de 1980 e não parei mais... (culpa do Roberto Leal e da Gretchen, rs...)
Me apaixonei pelo ballet em 1982. Foi uma "amor à segunda vista" e que perdura até hoje!
Estudei ballet de 1980 a 1993 em Mogi (e jazz, sapateado, dança moderna... e o que mais surgisse à minha frente como orportunidade de aprendizado!). Grande Profª Neusa Tanaka, minha mestra! 
Entre 1989 e 1993 estudei paralelamente em São Paulo para me aperfeiçoar. Todas as minhas férias de verão e inverno passei fazendo cursos intensivos. Apesar de crescer muito profissionalmente, não recomendo pois perdi muito de minha vida pessoal. Férias com minha família viravam 4 cursos, presentes de natal que viravam  8 fantasias de ballet, minha formatura de 3º colegial virou minha formatura de ballet e por aí vai... não sei se vale a pena para todos...
Tive professores do mundo todo aos quais sou extremamente grata por tudo que aprendi. Exemplos de vida. E figuras também...Coisas incríveis sobre o que fazer. Também claro, sobre o que não fazer (como se diz, "abafa o caso", rs)
Sou Bacharel e Licenciada Plena em Dança pela Faculdade Paulista de Artes. Modéstia à parte, sou profissional raríssima no Brasil. Infelizmente não temos professores de dança com formação superior. O número é irrisório (para o perigo dos alunos que caem em mãos erradas...). Temos cursos superiores de dança na UFBA, UNICAMP, Paulista de Artes, Anhembi-Morumbi e UFRGS. E só.
Sempre soube que queria dar aula, apesar de amar o palco. Minha mãe conta que com 7 anos eu colocava as bonecas sentadas no quintal, fazia minha lição de casa na lousinha e dava visto vo caderno no colo das bonecas, KKKK!!!! Ah! E com 12 anos eu também colocava uma cartolina do lado de fora do portão de casa escrito "aulas de ballet - grátis - hoje à tarde" e vinham umas 30 crianças desconhecidas na garagem de casa para eu dar aula. E eu dava!
Quando me formei no ballet junto com o 3º colegial (equivalente ao 3º ano do Ensino Médio agora) comecei a dar aulas profissionalmente. Era 1993. Não tinha dinheiro para pagar aluguel ainda, então comecei a dar aulas nos fundos da casa da minha "tia" Soeli (grande amiga da minha mãe). Combinei com ela que 30% do que entrasse seria revertido como aluguel. Feito.
Coloquei (como nos velhos tempos de garagem) uma mesinha na calçada, caderno e lápis na mão, cartolina escrito "aulas de ballet e jazz"  pregada no portão e comecei com 10 crianças (entre elas a querida Profª Thays Roggero, que era uma garotinha falante de franjinha, com seus 4 aninhos e suas amiguinhas serelepes...).
No fim do ano éramos em 27 alunas e 1 professora. A apresentação, nosso 1º espetáculo foi no teatro da EE. Prof. Firmino Ladeira.
No ano seguinte, tinha dinheiro para pagar aluguel. Mas consegui alugar... um açougue!!! Faxina no açougue, reforma no açougue e... tchanan! A 1ª "sede" do "Ballet Danielle Bittencourt" com direito a linha telefônica (a mesma até hoje), logomarca e registro na prefeitura.
Foram 7 anos na Av. Brasil no Mogi Moderno; 5 anos na Cel. Souza Franco em frente à Policlínica da FAEP e agora 6 na nossa Sebastião Domingues. Ufa!!!! Hay que trabajar, hay que trabajar!!!
Além da escola, dancei profissionalmente até meus 23 anos. Consegui aprovação da Lei de Incentivo à Cultura para sustentar minha carreira e foi muito importante (e árduo!). Depois, ao optar por "ter família" (o que raramente "casa" com vida de bailarina) entrei na carreira acadêmica.
Fiz Mestrado em Artes Corporais na UNICAMP, sob orientação do Prof. Dr. Eusébio Lôbo da Silva entre 2000 e 2003 e foi um período de intenso trabalho e estudo. Completei todos os 69 créditos e as 1035 horas de aula, continuei fazendo o bate-volta Mogi-Campinas mesmo com o barrigão de 9 meses da Luiza, fui aprovada em banca de qualificação (leia-se "o parto" da dissertação de mestrado, kkk!!!), mas a vida me levou para outra área do estudo da dança após eu passar por uns problemas de saúde: fui parar na Engenharia Biomédica.
Engenharia Biomédica???? E o que isso tem a ver com a Dança?
Olhando assim, de longe, nada. Mas, com o olhar afiado da técnica do artista, do ajuste do instrumento, tudo!!!!!
Fui estudar todos os mecanismos de controle dos movimentos e da estabilidade do corpo humano. E adorei!
Apesar de ter que passar pela aridez das ciências exatas (sim, engenharia é engenharia de qualquer jeito), consegui visualizar o movimento sob outra ótica e ampliar meu olhar sobre a dança.
Hoje consigo ver os gestos como expressões profundas da psique humana, como a mágica da biomecânica do corpo humano, como encadeamentos antropológicos, como o imaginário e a criação do artista, como a possibilidade de ensinar e de aprender o mundo! Quantas coisas no ato de dançar!
Gostei da experiência de passear das humanas para as exatas e saúde e emendei no Doutorado (em Engenharia Biomédica), na minha segunda faculdade (Pedagogia), e no meu aprofundamento no ensino de Ballet Clássico (University of Surrey - UK: Certificate in Ballet Teaching Studies).
Estudar é bom mas só tem utilidade se a gente tem vocação, no meu caso, para ensinar. Hoje eu dou aulas no nosso ballet e na Universidade de Mogi das Cruzes para os cursos de graduação em Educação Física e Pós-graduação em Arte-Educação.
Apesar de amar muito a minha profissão, nos últimos tempos não tem sido nada fácil lidar com o fato de não poder mais dançar. Parece que junto com a última cirurgia foi arrancado um pedaço de mim. É, depois de 31 anos dançando, apesar dos cuidados nos últimos 15 anos, o físico padece, como em qualquer esporte praticado profissionalmente, as lesões têm mais probabilidade de ocorrência...e ocorreram. Os últimos sete meses tem sido tristes, de adaptação à nova realidade, mas... seguir em frente né? Não dá para deixar "a peteca cair", não depois de taaaaanto esforço e dedicação!
E ainda bem que tenho vocês (meus alunos queridos!) para ensinar e passar minhas experiências adiante! Ainda tem muita lenha para queimar!
E se por um capricho da natureza o meu corpo não puder mais dançar, a minha alma continuará dançando, perpetuada nos gestos de todos os bailarinos que eu puder ensinar.
Um grande beijo e um grand jeté!
Profª Danielle